Ramón Valdés, o eterno seu MADRUGA.

Ramón Valdés, o eterno seu MADRUGA – (1923-1988)

DEPOIMENTOS E FATOS INÉDITOS SOBRE A MORTE DO ÍDOLO

“Ramón Valdés foi meu comediante favorito. Ninguém me fez rir tanto como Ramón Valdés. A morte dele me afetou muito, éramos muito amigos.” Palavras de Roberto Gómez Bolaños, o Chespirito, criador e intérprete dos lendários seriados Chaves & Chapolin. Chespirito fez esse pronunciamento em mais de uma ocasião. Sempre que lhe perguntam sobre Ramón, como que instantaneamente seus olhos se enchem de lágrimas e se perdem em lembranças tão nostálgicas quanto belas. Bolaños não se cansa de lembrar que Ramón Valdés foi seu comediante preferido. Tal declaração é, para aquele que é considerado o gênio da comédia, de uma importância incalculável. É o grande mestre da comédia elegendo o seu melhor comediante, aquele que também pode ter sido o seu melhor amigo.

Não é só Chespirito que se emociona ao lembrar Ramón Valdés, o Don Ramón (para nós, Seu Madruga) da série mundialmente famosa El Chavo del Ocho (Chaves). Todo o elenco da Vila era muito próximo de Ramón. Todos se lembram dele como um grande amigo, um irmão ou até mesmo um pai. De personalidade ambiguamente forte e simples, sabia cativar com seu jeito humilde e, principalmente, com seu bom humor. Para incorporar o Seu Madruga, ele só precisava de uma calça jeans, uma camisa preta, um par de tênis branco e um chapéu. Estava pronto. Chegava atrasado nas gravações, falha que compensava com seu talento primoroso. Interpretava tão naturalmente que é difícil dissociar o ator do personagem. Dono de um tempo de comédia raríssimo e certeiro, era capaz de fazer os companheiros de trabalho (elenco e equipe técnica) morrerem de rir durante as gravações.

É difícil dizer com qual dos atores o Seu Madruga se dava melhor. Todos falam tão bem dele e lembram-no com tanta saudade… Carlos Villagrán, o Quico, disse, recentemente:

— Nós tínhamos uma amizade tão forte, uma cumplicidade que não se pode calcular. Éramos muito unidos, de tal forma que ninguém pode entender. Até hoje não parei para pensar na sua morte. Para mim seria o fim.

São palavras fortíssimas, de grande apelo emocional, beirando o delírio. Observem a carga dramática do depoimento: como é grave o sofrimento de Carlos Villagrán ao se lembrar do amigo! Amigo que o acompanhou quando deixou para trás o elenco de “Chaves” e a Televisa. Amigo que chegou a atuar só com ele em outros seriados.

O curioso aqui é que Carlos, ao deixar o programa de Chespirito, em outubro de 1978, saiu brigado com todos os seus ex-companheiros, à exceção, obviamente, de Ramón. Este, no entanto, retirou-se do elenco, poucos meses depois, para ir trabalhar com Carlos em outro seriado e, contudo, não saiu brigado com ninguém! Tanto que, três anos depois, voltou para o elenco de Bolaños (sem, ainda, brigar com Villagrán – os dois ainda fariam mais um seriado juntos).

“Assim como no seriado, na vida real também era como um pai para mim. Ele me beijava na testa e me chamava de Chiquinha (Chilindrina) mesmo.” – lembra María Antonieta de las Nieves, a Chiquinha, que realmente poderia ser filha de Seu Madruga, já que a diferença de idade entre os dois é de 25 anos. “Quando ele morreu, a Chiquinha chorou diariamente por um bom tempo.”, recorda-se.

María Antonieta e Ramón Valdés atuaram juntos desde o final dos anos 60 ao lado de Chespirito

No mesmo dia da morte de seu “papito lindo”, Chiquinha fez um show para milhares de pessoas em homenagem ao ator. Terminado o espetáculo, não pôde conter o choro enquanto cantava uma música especial que ela mesma escreveu para ele.

E quem não se lembra do triste depoimento de Edgar Vivar (Sr. Barriga) para a equipe de Sônia Abrão no programa Falando Francamente, sobre a morte de seu amigo? Edgar não conteve as lágrimas. Considerou o fato como o pior episódio de que pode se lembrar de toda a sua carreira.

Edgar regressava de uma viagem à Guatemala quando, enquanto ainda descia do avião, recebeu a notícia trágica. As pessoas gritavam: “Senhor Barriga, o Seu Madruga morreu! O Seu Madruga morreu!”. Foi um choque muito grande, conta o ator, os olhos cheios d’água.

— Havia muitíssima gente no enterro. Gente do meio artístico e também o povo; todos foram se despedir de Don Ramón. Quando o enterraram, as pessoas começaram a aplaudir…

A fala de Edgar Vivar é interrompida por um silêncio doloroso e interminável.
Quando esteve no Brasil e foi entrevistado por Sônia Abrão, Edgar lembrou, a pedido dos fãs, os bons tempos com o amigo. Na maioria das vezes, eles saíam juntos após as gravações, já que moravam muito perto. “Às vezes eu dirigia, outras vezes era ele. Eu freqüentava a casa dele e adorava seus filhos. Ele também freqüentava a minha casa. Éramos muito amigos”.

Contudo, possivelmente quem mais sofreu com a morte do ídolo Ramón Valdés foi sua inseparável amiga Angelines Fernández, a Dona Clotilde, que também já faleceu. Poucos sabem, mas Angelines e Ramón já se conheciam tempos antes dos programas de Chespirito, pois eram renomados atores do cinema mexicano dos anos 50 e 60. Aliás, foi Ramón quem apresentou a atriz a Chespirito. Ela estava interessada em integrar o elenco de Bolaños e foi falar com Ramón, perguntando se Chespirito não tinha algum papel para ela. Foi assim que ingressou nas séries de Chespirito e nunca mais saiu.

— A morte do Don Ramón foi uma tragédia para a minha família. Minha mãe nunca mais foi a mesma, entrou em depressão e morreu poucos anos depois – disse Paloma Fernández, filha única da atriz que ficou reconhecida mundialmente como a Bruxa do 71, em entrevista a uma revista venezuelana.

— Ela descuidou da saúde, passou a fumar ainda mais. Nunca aceitou a morte do Don Ramón. Eram muito ligados, se amavam muito – completa Paloma.

Angelines Fernández morreu em março de 1994, do mesmo mal que matou Ramón Valdés: o fumo. Os dois fumavam muito e descontroladamente. Conta-se que, no enterro de Ramón, Angelines foi a última a ir embora do cemitério. Ela ficou ao lado do túmulo o dia inteiro, chorando, inconformada. Dizem também que ela não parava de falar, como se estivesse conversando com Ramón.

Mas Angelines continuou a gravar os programas de Chespirito até o ano de sua morte. Comparando a fase antiga com a recente, é assustadora a mudança física por que passou a atriz. Antes magérrima, engordou consideravelmente, além de estar visivelmente abatida nos programas mais novos. De fato, a morte de Ramón mexeu muito com ela e, como disse sua filha, a atriz nunca mais foi a mesma. Morreu seis anos depois, de câncer no pulmão.

“Ramón morreu ontem de madrugada, vítima de uma parada cardíaca, após permanecer um mês internado com câncer no pulmão.”

Esta é capa de um jornal de Porto Rico do dia 10 de agosto de 1988

A legenda da foto diz: “Ramón Valdez, al centro, el popular “Ron Damón” de la serie mexicana “El Chavo del Ocho”, murió ayer de un ataque al corazón. En la foto lo acompañan Roberto Gomez Bolaños como “El Chavo” y Maria Antonieta de las Nieves, “La Chilindrina”, dos de sus compañeros en la popular serie.”

T.: Ramón Valdés, ao centro, o popular “Seu Madruga” da série mexicana ‘Chaves’, morreu ontem de um ataque do coração. Na foto, estão Roberto Gómez Bolaños como Chaves e María Antonieta de las Nieves, a Chiquinha, dois de seus companheiros na série.

Quando descobriu o câncer, já era tarde. Ramón foi internado no início de julho no hospital Santa Helena, na cidade do México. Como diz o jornal, ele ficou internado um mês. No início de agosto, foi submetido a uma cirurgia no cóccix (pequeno osso que termina na parte inferior da coluna vertebral).

O jornal destaca ainda as atuações de Ramón no cinema, onde alcançou fama nacional. E, claro, ressalta que conquistou fama mundial com o personagem Seu Madruga da série de Roberto Bolaños. E ainda comenta que seus últimos trabalhos foram ao lado de Carlos Villagrán (Quico), na série ‘Ah, que Kiko!”.

Os fãs também sentem saudade… É, a gente sente. Nosso querido Seu Madruga. Tão amado, tão amigo, tão vivo. Vivo, sim, porque sua imagem está eternizada nos seriados. Como disse em certa ocasião seu dublador no Brasil, Carlos Seidl: “Parece que ele não morreu, pois sua imagem está ali, viva, e ainda nos faz rir.” É isso mesmo. Seu Madruga vive para sempre em nossas memórias e em nossas casas quando ligamos a TV para assistir ao ‘Chaves’. Ele vive cada vez que sorrimos por sua causa. Cada vez que nos faz rir! Porque quando nos faz rir, nos faz viver. E se nos faz viver, ele também está vivo.

Seu Madruga é imortal.

por Gustavo Berriel

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